

A Festa de Nossa Senhora do Desterro é, indiscutivelmente, o maior evento do município de Agrestina. Não apenas pelo seu peso religioso, mas pelo que representa social, cultural e economicamente. No entanto, enquanto a parte religiosa segue sendo mantida com zelo, organização e profundo respeito — quase sempre graças ao esforço da Igreja e dos próprios fiéis —, a parte profana da festa parece caminhar no sentido oposto: sem o cuidado e, sobretudo, sem a importância que ela exige.
É curioso, e preocupante, perceber como o evento que mais projeta Agrestina para fora de seus limites territoriais ainda é tratado de forma improvisada. A programação profana, que deveria ser pensada como espaço de convivência, valorização cultural e fortalecimento da economia local, frequentemente se resume a decisões apressadas e ausência de uma proposta clara. Falta o cuidado na proporção que o evento merece.
A festa profana não é inimiga da fé. Pelo contrário: ela é parte histórica das celebrações populares nordestinas. Sempre foi o momento do encontro, da música, da cultura, da feira, do comércio aquecido e do orgulho de ser agrestinense. Ignorar isso é negar a própria tradição do povo. O problema não é haver festa, mas como ela vem sendo conduzida — ou deixada de lado, com escolhas e decisões que não acrescentam ao evento e sabe-se lá a quem beneficiam.
Enquanto outras cidades do Agreste transformam seus eventos religiosos em verdadeiras vitrines culturais, com planejamento antecipado da grade artística, valorização de artistas locais e divulgação planejada e voltada para moradores e para atrair visitantes, Agrestina ainda patina no básico. Não tem faltado altos investimentos financeiros, mas falta, principalmente, visão. A festa não pode ser tratada apenas como um compromisso de calendário, algo a ser “cumprido” ano após ano.
Outro ponto que chama atenção é a ausência de diálogo com a população. Comerciantes, artistas, ambulantes e moradores raramente são ouvidos. O resultado é um evento que não atende plenamente a ninguém: nem a quem trabalha, nem a quem consome, nem a quem visita. A cidade perde economicamente, culturalmente e simbolicamente. O espaço do evento, a Praça Padre Cícero, vem sendo vista ano após ano mais vazia nas noites da festa e isso é reflexo da falta de empenho em cuidar da FNSD.
Cuidar da parte profana da Festa de Nossa Senhora do Desterro não significa tirar o protagonismo da fé, mas reconhecer que o evento é maior do que um palco e algumas atrações. Ele é patrimônio imaterial do município. Exige planejamento, respeito e compromisso com a história de Agrestina e com o seu povo.
Se a fé tem sustentado a festa até aqui, é hora de o poder público fazer a sua parte. Porque tradição não se mantém sozinha — ela precisa ser cuidada, valorizada e tratada com a grandeza que merece.
E, por fim, quem merece os parabéns é, sem sombra de dúvidas, a paróquia de Agrestina, que organiza, cuida, amplia e inova a programação religiosa e vem fazendo-a sustentar o porte da Festa de Nossa Senhora do Desterro.




